Educação Privada no Brasil

Uma reportagem interessante da Gazeta Mercantil sobre a venda de instituições de ensino superior no Brasil. É interessante que a participação de sócios estrangeiros, antes com sérios limites na legislação, não é mais um problema. Esta venda tende a aumentar a concentração do setor, reduzir a concorrência e prejudicar as pequenas instituições de ensino. Além disto, algumas destas instituições não possuem um comprometimento com pesquisa ou extensão. Isto significa que o movimento de aquisição destas instituições pode reduzir a possibilidade de criação de instituições privadas de excelência no Brasil.

Aspectos interessantes apresentados na reportagem dizem respeito a questão do lado emocional no momento da fixação do preço de venda.

Universidade privada acirra disputa aluno por aluno
Gazeta Mercantil – 27/11/2007

Dois anos depois de ter comprado 51% da Universidade Anhembi Morumbi por US$ 69 milhões, o grupo norte-americano Laureate International deve anunciar mais três aquisições em distintos pontos do País. Estão em fase adiantada de negociação – mas ainda em um penoso processo de auditoria das contas e da saúde financeira das instituições (due diligence) – a Universidade da Amazônia (Unama), de Belém do Pará; a Universidade Veiga de Almeida (UVA), do Rio de Janeiro; e o Centro Universitário do Norte (Uninorte), de Manaus.

É um longo caminho já percorrido pela Laureate nos últimos doze meses com a Universidade Potiguar (UnP), do Rio Grande do Norte, que tem 20 mil alunos. A compra, anunciada há três meses por R$ 100 milhões, acabou se transformando em um acordo operacional, para dar tempo de aproveitar o vestibular deste fim de ano. O acordo protocolado no início do mês envolveu também a Faculdade Guararapes, com dois mil alunos, no município de Jaboatão dos Guararapes, próximo a Recife.

(…)
A Estácio de Sá Participações também está ampliando agressivamente sua atuação no mercado paulistano por meio de aquisições e pela expansão orgânica através de convênios com escolas do ensino médio. Sua controlada Centro Universitário Radial (UniRadial), a universidade está fechando a compra da Faculdade Interlagos de Educação e Cultura (Fintec) e mais duas instituições de pequeno porte.

A UniRadial, voltada para as classes C e D, é porta de entrada da Estácio no maior mercado de educação do País, com um universo de 400 mil universitários apenas na capital e que, a cada ano, abriga 130 mil novos calouros.

(…) O SEB – Sistema Educacional Brasileiro S.A., do Grupo COC, com sede no interior paulista, também anunciou ontem aquisições. Por R$ 10 milhões, comprou a Sociedade Brasileira de Programação Educacional, mantenedora da Faculdade Metropolitana, de Belo Horizonte, com cerca de 2,7 mil alunos.

(Gazeta Mercantil/Caderno C – Pág. 7)(Tânia Nogueira Alvares)

Definir preço é o maior entrave nas negociações
Gazeta Mercantil – 27/11/07

Os empecilhos para fechar um negócio no mercado privado de ensino superior são grandes. As instituições, de origem familiar, não são administradas dentro de um modelo de governança corporativa, nem dispõem de um sistema contábil financeiro que permita medir qual é exatamente sua geração de caixa, medida normalmente adotada pelos compradores.

“Há uma diferença grande entre o valor estimado do Ebtida ou do faturamento apresentado pela instituição para a projeção de valor de compra feita pelo investidor”, diz Carlos Monteiro, da CM Consultoria. Não é uma simples questão matemática de multiplicar o preço médio de mercado por aluno pelo total de estudantes da escola, ou por um determinado número de vezes o valor do Ebtida (conceito que mede a geração de caixa). Alguns negócios recentes, inclusive, foram fechados com base no potencial de expansão da faculdade.

“Está difícil fechar um negócio pelos valores racionais de mercado. Os vendedores colocam um preço emocional que é difícil de mensurar – tradição, origem familiar pesam muito – e acaba havendo discrepância muito grande entre o preço pedido e o valor analisado. E os vendedores acham que os investidores querem comprar só na bacia das almas”, enfatiza o consultor.

O caso da Unama pode ilustrar esse processo. “Já fomos visitados por todos os grupos de investidores. Tanto que, de professor de oratória, virei mestre em ‘escutatória'”, brinca o professor Édson Raymundo Pinheiro de Souza Franco, 71 anos e reitor da Unama há 14 anos. Um dos seis sócios atuais, ele diz que, mais do que com o valor do negócio, ele está preocupado com a manutenção dos valores e princípios que têm norteado a Unama nos últimos 20 anos. Ele não confirma o fechamento do negócio, mas admite que a proposta tem dividido os sócios: quatro são favoráveis à venda, dois não, e ele é um deles. “A Unama tem um valor imponderável.”

A própria Unama é fruto de consolidação de duas antigas instituições de Belém. Hoje tem 20 mil alunos (18 mil na graduação e 2 mil na pós-graduação), que pagam mensalidades entre R$ 400 e R$ 1 mil, dependendo do curso. Seu número de alunos é igual à soma dos alunos de todas as outras faculdades particulares da capital do Pará. A Unama também tem instalada uma base de ensino a distância em onze municípios, com 4,5 mil estudantes. “É o futuro da educação”, diz o professor Souza Franco.

UniNorte prefere parcerias

“O momento do mercado educacional é de análise, de organização do setor e de estudo de todas as possibilidades’, afirma o presidente do Centro Universitário do Norte (UniNorte), professor Waldery Areosa Ferreira, sem admitir o negócio com a Laureate. A instituição também já foi visitada por diferentes grupos consolidadores, mas a UniNorte, sediada em Manaus, não considera a possibilidade de ser vendida. “Firmar parcerias ou algo neste caminho podemos até pensar, mas vender, não.”

Com mais de 18 mil alunos só na graduação, a empresa começou a expandir para o ensino superior em 1994. Em abril de 2004 as diferentes faculdades criadas no processo de expansão se transformaram em centro universitário, administrado pela Sociedade de Desenvolvimento Cultural do Amazonas (Sodecam). Além do UniNorte, o grupo tem uma franquia do Colégio Objetivo de São Paulo, que oferece da educação infantil ao ensino médio. Mas não tem parceria nem pertence ao Grupo Di Genio, enfatiza Ferreira.

Com 53 cursos de graduação e mensalidades de R$ 335,00 (História e Geografia) a R$ 892,50 (Odontologia), o UniNorte disputa o mercado manauense com mais 15 instituições, sendo duas públicas.

Segundo Ferreira, hoje a demanda que estava reprimida há alguns anos conseguiu ser atendida. “Restam às instituições que conseguiram se firmar no mercado educacional oferecer diferenciais a seus alunos. Por isto, não descartamos nenhuma possibilidade de expansão ou de apresentar novidades, como por exemplo o crescimento através de aquisições.”

(Gazeta Mercantil/Caderno C – Pág. 7)(T.N.A.)

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