Mercado de Carbono

Mercado de Carbono começou com uma caipirinha na Eco 92

Por Leila Abboud
The Wall Street Journal, de Londres

O planeta está ficando mais quente. Richard Sandor, um economista de 66 anos, está ficando mais rico.

A empresa dele, Climate Exchange PLC, domina o crescente comércio europeu de “créditos de carbono” — na prática, a compra e venda do direito de poluir. Desde 2000, a União Européia exige que grandes poluidores ou reduzam a quantidade de dióxido de carbono que expelem ou comprem créditos de poluição num mercado aberto.

Boa parte desse comércio acontece numa bolsa fundada em 2005 por Sandor, que já foi um acadêmico da Universidade da Califórnia e se transformou num gregário empreendedor que atua em mudança climática.

Ele é uma dos maiores casos de sucesso entre os investidores de todo o mundo que tentam lucrar com a crescente preocupação ambiental — com empreitadas que vão da especulação em commodities à abertura de empresas de energia eólica. No ano passado, o mercado global de créditos de carbono quase dobrou, para 40 bilhões de euros (US$ 61,5 bilhões), de acordo com a Point Carbon, uma firma de pesquisa de mercado de Oslo.

A empresa de capital aberto de Sandor, a Climate Exchange, agora opera 90% do comércio em bolsas de carbono e tem um valor de mercado de mais de US$ 1 bilhão. A participação de Sandor na firma, de 20%, vale mais de US$ 200 milhões no papel.

Trata-se de um misto incomum de teoria dos mercados e ambientalismo. “A direita sempre suspeita que você seja um ambientalista de sair abraçando árvores e a esquerda o acusa de ser um capitalista que só pensa em dinheiro”, diz Sandor, que nos anos 90 criou um sistema baseado no mercado para reduzir os poluentes que causavam a chuva ácida.

O sucesso dele com a negociação de créditos de carbono está causando muito interesse em firmas rivais. Em janeiro, a NYSE Euronext lançou sua própria bolsa de créditos de carbono, elevando o número total para pelo menos oito mundialmente. Citando um “potencial enorme de crescimento”, a Bolsa Mercantil de Nova York planeja entrar nesse setor na semana que vem.

O próximo grande campo de batalha será nos Estados Unidos, onde o Congresso está debatendo a criação de um sistema para regulamentar as emissões dos gases do efeito estufa.

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Os créditos de carbono são, simplesmente, commodities como qualquer outra — seja ouro, petróleo ou barriga de porco. Cada crédito emitido pelo governo garante a seu detentor a permissão para emitir uma tonelada de dióxido de carbono no ar. A Carbon Exchange ganha dinheiro ao tirar para si uma fatia de cada transação.

Os programas chamados “limite e comércio”, como o da Europa, têm o propósito de dar aos poluidores um incentivo financeiro para que reduzam a poluição. Os governos estipulam limites para as emissões e as empresas que conseguem ficar abaixo desses limites podem vender seus créditos de poluição para outras firmas que estejam dispostas a pagar para continuar poluindo. Com o passar do tempo, os limites ficam mais rigorosos, o que torna a opção de continuar poluindo mais cara.

Cerca de 70% das permissões de carbono ainda trocam de mãos sem passar pelo mercado, em transações privadas entre companhias. Mas a bolsa de Sandor é uma peça-chave da infra-estrutura financeira por trás desse sistema. Ela dá às empresas reguladas pelos limites de poluição — gigantes industriais como usinas termoelétricas, siderúrgicas e fabricantes de cimento — um lugar para comprar e vender créditos de carbono a preços que são estabelecidos publicamente. Ela também permite que fundos de hedge e outros investidores especulem com os créditos do mesmo jeito que fariam com outros investimentos, como ouro ou ações.

Alguns economistas preferem que os poluidores sejam punidos com impostos. O Prêmio Nobel Joseph Stiglitz e o ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca Gregory Mankiw estão entre eles. Um imposto sobre a emissão de carbono, dizem, seria mais transparente e menos vulnerável a lobby por limites mais altos.

No mês passado, um relatório do Gabinete Orçamentário do Congresso americano afirmou que um imposto do carbono podia alcançar as mesmas reduções de emissões “a uma fração do custo” de um sistema limite-e-comércio. A economia deriva parcialmente do fato de um imposto ser mais simples de implementar do que a constituição de um mercado para créditos de carbono.

Outras críticas do comércio de créditos de carbono se focam em magos financeiros — como Sandor — que projetam e operam esses mercados. “Os recursos financeiros estão sendo redistribuídos para bancos e corretores, em vez de pagar inovações tecnológicas para reduzir as emissões”, diz Carlo Stagnaro, do Instituto Bruno Leoni, da Itália, que acaba de publicar um relatório sobre o sistema de negociação de emissões na União Européia.

O próprio sistema europeu mostra sinais desses problemas. Os governos de lá inicialmente cederam à pressão da indústria e alocaram créditos de carbono em excesso, deixando as empresas sem incentivo real para reduzir as emissões.

O sistema, que existe há somente dois anos na Europa, produziu reduções ínfimas nas emissões. Mas o comércio dos créditos de carbono cresceu muito — gerando um belo lucro para bancos, operadores e bolsas como a que foi fundada por Sandor. Empresas de energia e a indústria pesada negociam créditos de carbono continuamente para tentar ganhar dinheiro com as flutuações de preço e para se proteger do risco futuro, bem como para atender às regras de Kyoto.

Robert Stavins, um economista ambiental da Escola de Administração Pública John F. Kennedy, da Universidade Harvard, admite que o mercado de carbono europeu não é perfeito, mas defende o papel dos financistas. “A única maneira de combater a mudança climática é se houver uma oportunidade de negócio e pessoas que ganhem uma fortuna a partir dela”, disse ele.

Foi o que Sandor fez. Ele teve a visão de um mercado de créditos de carbono muito antes de a maioria das pessoas ter ouvido falar de aquecimento global. Na Eco 92, a conferência da Organização das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992 no Rio de Janeiro, ele apresentou um trabalho acadêmico sobre como os mercados podiam ser usados para reduzir as emissões.

A Eco 92, na verdade, preparou o terreno para o que viria a ser em 1997 o Protocolo de Kyoto.

Foi no Brasil, comendo camarão e bebericando uma caipirinha na praia, que Sandor diz ter tido sua primeira idéia de criar um mercado de créditos de carbono. “Eu sei como criar novos mercados”, recorda-se ter pensado. “Já fiz isso antes.”

No fim dos anos 90, finalmente teve sua chance. À época, os países começavam a assinar o Protocolo de Kyoto.

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