IFRS e Brasil

Quigley espera manter crescimento com adoção do padrão IFRS pelo Brasil

Valor Econômico – 14/3/2008
A agitação do mercado brasileiro de auditoria está atravessando fronteiras. O fato de o Brasil olhar para fora ao promover a convergência da contabilidade nacional ao padrão internacional IFRS está fazendo o mundo olhar o país mais de perto. Além do crescimento dos últimos anos, a expectativa que envolve a convergência ao IFRS trouxe ao Brasil o presidente mundial da Deloitte, James H. Quigley.O executivo veio para se encontrar com os sócios e falar com executivos de 250 clientes no Brasil. Foram dois dias de agenda lotada.Nos últimos dois anos, a unidade brasileira teve um aumento de receita acumulado de 52%, o dobro do ritmo verificado no desempenho global da Deloitte. O faturamento líquido no ano passado somou R$ 500 milhões. É pouco comparado aos US$ 23 bilhões de receita global da companhia, mas o país já reúne 2,2% da força mundial da empresa, com um total de 3,2 mil funcionários aqui no país.

O número de profissionais dobrou, comparado há seis anos.Quigley está animado com o Brasil. Não é para menos. Ele espera que mais de um terço do crescimento do (Produto Interno Bruto) PIB global virá dos Bric – Brasil, Rússia, Índia e China nos próximos anos. E o presidente mundial da Deloitte não parece preocupado com os reflexos da crise externa no Brasil. “O país está muito mais preparado para esse cenário do que esteve nos últimos dez anos.”O país é o único desse time em que a empresa já é líder de mercado. Nos últimos cinco anos, a arrecadação triplicou. “O Brasil é um mercado crítico para nós. Queremos replicar essa experiência.”De acordo com números de janeiro da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Deloitte é responsável pela auditoria de 23% das companhias abertas, seguida pela KPMG, que tem 16% desse mercado. Assumiu os trabalhos de 31% das novas empresas que vieram à bolsa, à frente da BDO Trevisan, que levou 30% das estreantes.A expectativa é que o segmento continue animado por aqui. Os prognósticos são que a receita avance perto de 20% anualmente, nos próximos três a quatro anos.A crença é de que a convergência ao IFRS contribuirá fortemente para manter o ritmo de expansão dos últimos anos, impulsionado, em boa parte, pelas aberturas de capital. Quigley enfatiza que o trabalho é complexo. “Soa fácil. Mas é muito difícil”, disse ele. Veja abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva que Quigley deu ao Valor.

Valor: O quanto é importante para o Brasil caminhar rumo ao padrão internacional IFRS?

James H. Quigley: É extremamente importante. Um passo muito positivo. Por isso, o momento é de grande relevância também para a Deloitte. Para mantermos nossa liderança e darmos suporte aos nossos clientes. É uma tendência mundial. Ter um padrão contábil inserido no contexto global faz muita diferença num mundo de mercado de capitais integrado como é hoje. Facilita na compreensão das informações das empresas, nas análises das companhias e torna a alocação de capital global muito mais eficiente. Está se criando uma linguagem comum no mundo. É como se todos passassem a falar a mesma língua. O IFRS já foi adotado como padrão em mais de 100 países e os Estados Unidos estão tendo que olhar cada vez mais atentamente para essa questão.

Valor: No Brasil, apesar de a lei que promove a convergência ter tramitado no legislativo por sete anos, as companhias terão um prazo apertado para se preparar para as mudanças. Como foi esse processo no resto do mundo?

Quigley: Em quase todos os países foi um processo de preparo que levou de quatro a cinco anos. Os governos ou os órgãos responsáveis anunciavam que dentro de alguns anos as companhias teriam de mudar sua contabilidade. Como o Japão e a Coréia, que anunciaram no ano passado que a partir de 2012 usarão o IFRS. Na União Européia não foi diferente. Em 2001, foi comunicado às empresas que elas teriam de adotar o padrão internacional a partir de 2006. Houve cinco anos para elas se preparem. Os Estados Unidos estão sendo pressionados para adotarem o IFRS e acredito que farão da mesmo forma, com tempo para as empresas.

Valor:Para as companhias, é um processo trabalhoso?

Quigley: Sim, muito. Pode parecer fácil, mas é um processo complexo. Não é como trocar de lâmpada e acender a luz. É um trabalho enorme. É preciso mudar todos os sistemas de tecnologia da informação da empresa, treinar pessoal, desenvolver políticas e processos… É uma nova realidade a qual a companhia e seus executivos serão submetidos. Soa fácil, mas é muito difícil.

Valor: No Brasil, a convergência do padrão contábil está estimulando uma discussão sobre a convergência aos métodos globais de auditoria e, inclusive, sobre a criação de um órgão de fiscalização para os auditores. O próprio Banco Mundial solicitou que o país colocasse a discussão em pauta. O que o sr. pensa desse processo?

Quigley: Acredito que não dá para falar em convergência num único campo. É preciso ter convergência em tudo para que ela funcione. Nas regras e nos processos. Quanto à fiscalização, entendo que faz parte do trabalho, como já há nos Estados Unidos um órgão responsável por isso. A existência de um regulador dá muita credibilidade ao mercado. Mas sei que é fácil falar essas coisas. Difícil é colocar tudo isso para funcionar. Leva tempo.

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