Bear Stearns 1

Sangria de 72 horas derrubou reputação erguida em 85 anos

Valor Econômico – 30/5/2008

Os 40 executivos mais importantes da Bear Stearns que estavam ouvindo Alan Schwartz na hora do almoço do dia 13 de março haviam passado a manhã daquele dia observando o preço da ação da companhia despencar. Os rumores em Wall Street eram de que a Bear Stearns estava precisando de dinheiro.O diretor-presidente garantiu calmamente aos seus subordinados que o Bear Stearns conseguiria suportar a tempestade. “Isso”, disse ele “é muito barulho.”Na platéia, Michael Minikes não estava tão convencido. O veterano de 65 anos da Bear Stearns havia passado grande parte daquela semana atendendo ligações telefônicas de clientes preocupados. Alguns já haviam sacado grandes somas de suas contas na Bear Stearns.”Você tem algum idéia do que está acontecendo?”, perguntou Minikes, interrompendo seu chefe. “Nosso dinheiro está voando pela porta.

Nossos clientes estão nos deixando.”Foi o começo de 72 horas frenéticas que colocariam a instituição financeira de Wall Street de joelhos e ameaçariam a estabilidade do sistema financeiro mundial. Entrevistas com mais de duas dezenas de atuais e ex-executivos, diretores, operadores e outros funcionários da Bear Stearns mostram a rapidez com que a companhia, que levou 85 anos para ser construída, se desfez. Ontem, acionistas da Bear Stearns aprovaram a venda do banco, na bacia das almas, para o J.P. Morgan Chase & Co., que está pagando US$ 10 por uma ação que há alguns meses valia mais de dez vezes isso.No fim daquela quinta-feira, tantos clientes haviam sacado seu dinheiro da Bear Stearns que a firma teve que recorrer a reservas de caixa de US$ 15 bilhões. A queda súbita da corretora foi um lembrete perfeito da fragilidade e ferocidade de um sistema financeiro erguido em grande parte sobre a confiança. Bilhões de dólares em títulos são negociados todos os dias com nada mais que um acordo implícito de que os parceiros nos negócios os pagarão quando solicitados. Quando os investidores começaram a achar que a Bear Stearns não conseguiria liquidar seus negócios com os clientes, essa confiança acabou num segundo.Os parceiros de negócios, ávidos por evitar perdas, começaram a desaparecer com a mesma rapidez. Isso alimentou ainda mais os rumores de que a companhia estava com problemas. Alguns parceiros, vislumbrando uma oportunidade de lucros, fizeram apostas contra a Bear Stearns, ajudando a acelerar seu fim. Autoridades começaram a investigar se estava havendo um esforço coordenado para alimentar os rumores negativos por aqueles que estavam apostando na queda da Bear Stearns.

Março havia começado com tranqüilidade para Schwartz. Ela havia passado meses lidando com a fúria dos funcionários por causa da maneira como a Bear Stearns vinha procedendo na crise de crédito. Mas ele estava encorajado pela maneira como os lucros do primeiro trimestre estavam se desenhando: números preliminares indicavam que a firma havia obtido um lucro por ação de mais de US$ 1.Schwartz estava convencido de que os investidores irrequietos se acalmariam quando os resultados fossem anunciados no fim do mês.Na quinta-feira, 6 de março, com as ações da Bear Stearns caindo abaixo dos US$ 70 (elas haviam chegado a US$ 131,58 em outubro), Schwartz sentiu-se confortável o suficiente para prosseguir com o plano de falar naquela noite sobre a indústria das telecomunicações para o conselho da Verizon Communications, um de seus principais clientes, no luxuoso Breakers Hotel de Palm Beach, na Flórida.O primeiro dia da conferência apresentou uma série de más notícias. Primeiro, a agência de classificação de risco Moody’s Investors Service rebaixou uma série de títulos lastreados em hipotecas emitidos por uma subsidiária da Bear Stearns, num reflexo dos temores de que os financiamentos imobiliários que garantiam esses títulos apresentavam um risco maior de calote da parte de seus tomadores.

Uma boa medida do quanto Wall Street começou a ficar pessimista com a Bear Stearns naquela segunda-feira, foi o custo de certos contratos provados financeiros conhecidos como swaps de default de crédito, um mercado grande e pouco regulamentado em que uma parte, mediante um preço, assume os riscos de um bônus ou empréstimo se dar mal.Na sexta-feira, 7 de março, o custo anual de um contrato de cinco anos para proteção contra default sobre US$ 10 milhões em dívidas da Bear Stearns subiu para US$ 458 mil – uma soma muito maior que a que estava sendo paga pelos investidores como seguro contra não-pagamentos da parte de concorrentes, como a Lehman Brothers Holdings e o Goldman Sachs Group.Na segunda-feira, o custo daquele contrato havia saltado para US$ 626 mil. Os fundos e outros investidores estavam apostando que a Bear Stearns poderia ficar sem dinheiro.

Na sede da Bear Stearns, na Madison Avenue, executivos corriam para apagar a fogueira. O diretor financeiro, Samuel Molinaro Jr., e sua equipe começaram a telefonar para parceiros de negócios para investigar e abafar os rumores. Os executivos enfatizavam que a Bear Stearns tinha bastante caixa – cerca de US$ 18 bilhões – com o qual trabalhar, o que garantiria o pagamento dos credores e a liquidação de contratos.Em Palm Beach, Schwartz estava preocupado com o caos que havia se instalado em casa. Enquanto ele e Robert Iger, diretor-presidente da Walt Disney Co., se preparavam para a sessão do dia seguinte, Schwartz foi interrompido repetidas vezes por visitas de colegas e chamadas telefônicas de Manhattan, em busca de conselhos sobre como combater os rumores crescentes. Mas Schwartz estava amarrado: se deixasse a conferência rapidamente, demonstraria pânico para clientes importantes como Iger e a CBS Corp. e seu diretor-presidente, Leslie Moonves. E mesmo que tomasse um avião de volta para Nova York, Schwartz sentia que haveria pouca coisa a fazer.

Mais tarde naquele dia, a Bear Stearns emitiu um comunicado que mencionava Schwartz afirmando que “o patrimônio líquido, a liquidez e o capital da companhia permanecem fortes”.Isso não ajudou muito. Antes do fim da terça-feira, dia 11 de março, o ING Groep disse à Bear Stearns que estava retirando cerca de US$ 500 milhões em financiamentos. Funcionários do banco holandês disseram que a administração do ING queria manter distância até que a poeira baixasse.

No transcorrer do dia, boatos afetaram a concentração do operadores da Bear Stearns, que começaram a temer por seus empregos e suas poupanças. Alguns tinham grandes parcelas de seu patrimônio pessoal amarradas às ações da firma – cerca de metade de suas bonificações anuais, que compreendiam a maior parte de suas remunerações anuais e levam vários anos para serem exercidas.

No meio da tarde, Bruce Lisman, o normalmente taciturno presidente adjunto de 61 anos da divisão de ações da Bear Stearns, subiu sobre uma mesa perto de sua sala no quarto andar e pediu a atenção dos operadores: “Vamos continuar concentrados”, disse, em voz alta. “Continuem trabalhando com afinco. A Bear Stearns existe há muito tempo e vamos continuar existindo. Se houver alguma novidade, eu aviso vocês assim que eu tomar conhecimento.”

Em meio às turbulências, Alan “Ace” Greenberg, 80, ex-presidente da Bear Stearns, tentou aliviar a tensão. Usando sua tradicional gravata borboleta, Greenberg, que ainda opera no mercado, fez truques de mágica para distrair os colegas. Mediante pedidos destes, ele também repetiu uma cena que faz parte da tradição da companhia: fez uma imitação de uma tacada de golfe na sala da mesa de operações, assim como havia feito na segunda-feira negra de 1987, quando houve o crash dos mercados de ações globais. Greenberg, que não joga golfe, fez como se tivesse ganhado um jogo e anunciou em voz alta que iria tirar o dia seguinte de folga.

Mas não havia nada que pudesse aliviar a ansiedade de clientes e parceiros de negócios preocupados com o que poderia acontecer se seu dinheiro ficasse preso em uma companhia que estava quebrando. Fundos de hedge encheram a corretora de valores do Crédit Suisse Group com pedidos de confirmação de negócios contra a Bear Stearns. Num e-mail explosivo enviado naquela tarde, operadores de ações e bônus do Crédit Suisse foram informados de que todos aqueles pedidos de mudança de compromisso envolvendo o Bear Stearns, e quaisquer outras “exceções” aos negócios normais, exigiriam a aprovação dos gerentes de risco de crédito.

Uma versão distorcida daquela diretiva chegou a operadores de outras firmas, que começaram a dizer a associados que o memorando interno do Crédit Suisse havia alertado seus operadores para que não se envolvessem em quaisquer transações com o Bear Stearns.Os executivos acreditavam que seria necessária outra declaração pública da Bear Stearns. Acertos foram feitos para que Schwartz aparecesse, da Flórida, em uma transmissão da rede de televisão CNBC.

Na quarta-feira, minutos depois das 9h, Schwartz disse ao público do canal de TV a cabo que “algumas pessoas especulam que a Bear Stearns pode estar tendo problemas… uma vez que somos um participante significativo dos negócios hipotecários. Mas nenhum desses rumores é verdade”.Mas antes que ele pudesse expor seus pontos de vista, que incluíam mencionar as vigorosas reservas de caixa da firma e indicar aos investidores que a Bear Stearns teria um primeiro trimestre lucrativo, Schwartz foi interrompido por noticias que chegavam de Nova York: o governador Eliot Spitzer estava renunciando por causa de sua ligação com prostitutas. Schwartz ficou consternado, mas teve a oportunidade de fazer suas observações antes do anúncio da informação ao público. Mas clientes preferenciais de corretagem continuaram sacando seu dinheiro.

De volta a Nova York, o diretor-presidente reuniu executivos seniores para discutir como salvar a firma. Gary Parr, banqueiro de investimento do Lazard Ltd que já havia feito alguns trabalhos para a Bear Stearns, foi convocado.

Schwartz chamou H. Rodgin Cohen, presidente do conselho de administração da firma de advocadia Sullivan & Crownwell. A Bear Stearns ainda não havia registrado retiradas de dinheiro desastrosas, mas Schwartz disse que não sabia o que o dia seguinte traria. “Vou chamar o Fed”, respondeu Cohen.

Por volta das 10h45, Cohen ligou para Timothy Geithner, presidente do Federal Reserve de Nova York. Ele exortou a autoridade monetária a acelerar um programa especial de empréstimos a bancos de investimento que deveria ter início em 27 de março, e a usar seu poder para emprestar dinheiro diretamente aos bancos de investimento, que não são regulados pelo Fed.

Esta última iniciativa permitiria à Bear Stearns usar seu inventário de hipotecas e títulos garantidos por elas como garantia a empréstimos feitos pela janela de desconto do Fed, que normalmente era reservada para empréstimos de curto prazo a bancos comerciais. O acesso a esse dinheiro garantiria à Bear Stearns pagar seus credores e parceiros de negócios.

“Acho que estou no mercado há muito tempo para perceber quando um problema é grave, e este parece ser um”, disse Cohen a Geithner. Ele respondeu: “Se ele está preocupado, Alan [Schwartz] precisa me ligar”. No início da manhã de quinta-feira, Schwartz ligou para Geithner para mantê-lo a par da situação. Mas ele não pediu ajuda imediata, afirmando que esperava conseguir financiamentos de prazos mais longos empregando outros meios.

Um pouco antes das 12h30, executivos da Bear Stearns começaram a se reunir no 12º andar para um almoço semanal para discutir questões de mercado. Schwartz começou a falar por volta das 12h45.

Suas tentativas de tranqüilizar a todos foram interrompidas por Minikes, que se queixou que a firma estava perdendo dinheiro e clientes. Muitos na Bear Stearns passaram aquela tarde paralisados, enquanto os boatos se espalhavam.Por volta das 19h, alguns dos principais executivos da Bear Stearns reuniram-se na sala de reuniões de Molinaro, no 6º andar da sede do banco. O diretor financeiro de 50 anos havia entrado para a firma em 1986 como contador e agora enfrentava o fim da empresa. “Quais são minhas opções?”, perguntou Molinaro a Robert Upton, tesoureiro da Bear Stearns.Upton desfiou os danos a partir de números rabiscados numa caderneta amarela: desde a sexta-feira anterior a firma havia quase exaurido suas reservas de caixa de US$ 18,3 bilhões, deixando-a com US$ 5,9 bilhões. Mas ela ainda devia US$ 2,4 bilhões ao Citigroup. Molinaro afundou a cabeça nas mãos. Schwartz ficou pálido e deixou a sala abruptamente.

A poucas quadras dali, na East 48th Street. Jamie Dimon, o diretor-presidente do JP Morgan Chase, comemorava seu aniversário com a família no restaurante grego Avra, quando seu celular tocou. Era Gary Parr, o banqueiro do Lazard representando a Bear Stearns. Ele perguntou se Dimon poderia conversar com Schwartz. Pouco depois, Schwartz ligou. “Vamos fazer alguma coisa”, disse ela a Dimon, que àquela altura já havia saído do restaurante. Dimon não via porque fazer um negócio naquela noite, mas concordou em tentar ajudar.

Schwartz preparou uma reunião de emergência do conselho de administração naquela noite de quinta-feira, para colocar os diretores a par da situação. Era tarde, de modo que a maioria deles telefonou. James Cayne, que havia permanecido como presidente do conselho depois de deixar o cargo do diretor-presidente em 8 de janeiro, perdeu parte da discussão porque estava participando de um torneio de bridge em um hotel de Detroit.Os diretores autorizaram um pedido de concordata emergencial, mas Schwartz ainda tinha esperanças de que um resgate poderia ser acertado. Um pedido de concordata para a Bear Stearns – com suas quase 400 subsidiárias diferentes – seria muito complicado. Os executivos acreditavam que se a firma conseguisse se agüentar até a sexta-feira, eles poderiam chegar a uma solução mais sustentável para os problemas.

Por volta da meia-noite, Matt Zames, um operador sênior do JP Morgan, chegou com uma equipe para dar uma olhada na contabilidade da Bear Stearns. O grupo pareceu surpreso com sua posição financeira. “Precisamos falar com o Fed”, disse Zames. “Onde eles estão?” Funcionários da Bear Stearns os conduziram até a biblioteca legal da firma, onde funcionários do Fed de Nova York já estavam há várias horas.Às 5h da sexta-feira, Geithner convocou uma conferência telefônica com funcionários graduados do governo americano, incluindo o presidente do Fed, Ben Bernanke, e o secretário do Tesouro Henry Paulson Jr., para discutir as conseqüências de um colapso da corretora. Eles viram ondas de choque se espalhando para milhares de firmas em todas as partes do mundo, que envolveriam trilhões de dólares e levaria dias para serem contidas. Com mais de uma hora de reunião, Geithner alertou que o tempo estava se esgotando. Alguns mercados de crédito importantes estavam para iniciar os negócios. “O que será?”, perguntou ele.

Por volta das 6h45, funcionários da Bear Stearns receberam um e-mail de Stephen Cutler, conselheiro-geral do JP Morgan. Era o esboço de um comunicado à imprensa anunciando que o banco havia concordado em fornecer à Bear Stearns financiamentos “necessários” para até 28 dias.

O dinheiro do resgate estava vindo do Fed, que também estava arcando com o risco do empréstimo. Era a primeira vez desde a Grande Depressão que o Fed fazia um empréstimo do tipo para uma instituição que não fosse um banco. Ele iria fornecer o socorro através do JP Morgan porque, enquanto banco comercial, a instituição já tinha acesso à janela de desconto do Fed e estava sob supervisão do banco central.

Na sala de reuniões do 6º andar, onde Molinaro, Upton e outros estavam reunidos, os executivos comemoraram. Eles pensaram que teriam quatro semanas para resolver seus problemas.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: