Bear Stearns 2

Venda da Bear foi fechada em 48 horas

2460 words

2 June 2008

Valor Econômico

Portuguese

Havia sido um dia difícil, mas quando Alan Schwartz se dirigia para casa na sexta-feira, 14 de março, o diretor-presidente da Bear Stearns pensava que teria um mês para encontrar um comprador para sua firma.Um empréstimo organizado rapidamente e garantido pelo governo dos Estados Unidos por até 28 dias, havia permitido à corretora abrir suas portas naquela manhã. Mas sua ação continuava caindo, seus clientes continuavam indo embora e seus parceiros de negócios continuavam desaparecendo. Estava óbvio para o secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson Jr. que a Bear Stearns não sobreviveria ao fim de semana. Era hora de uma conversa difícil.Schwartz estava no banco de trás de um automóvel que o levava de Manhattan para Greenwich, Connecticut, quando recebeu uma ligação de Paulson e do presidente do Federal Reserve de Nova York, Timothy Geithner. “Você precisa fechar um negócio até a noite de domingo”, disse Paulson, um experiente ex-executivo de Wall Street. Schwartz ficou aturdido.

Agora, com o mercado chocado com os problemas da Bear Stearns e o preço de sua ação totalmente destruído, ele teria que encontrar a melhor oferta ao seu alcance para evitar a falência em 48 horas.O telefonema para Schwartz coroou uma semana atribulada – e pressagiou outros dez dias de caos. Entrevistas com mais de duas dúzias de executivos e outros envolvidos diretamente na medida, mostram que a Bear Stearns esteve à beira da morte duas vezes. Depois que a firma concordou em se vender para o JP Morgan Chase por meros US$ 2 a ação, o resgate coordenado e financiado pelo Fed quase colapsou por causa de uma única frase colocada no acordo. A certa altura, o JP Morgan ameaçou retirar o financiamento que havia prometido à Bear Stearns. Em troca, executivos da Bear Stearns pensaram em processar o JP Morgan e a firma quase foi forçada a liquidar seus ativos. Finalmente, a Bear Stearns concordou com o preço de aproximadamente US$ 10 por ação. O negócio foi aprovado pelos acionistas na última quinta-feira.Quando Schwartz enfrentou os investidores em uma conferência telefônica em 14 de março, ele havia estado na sede da firma por mais de 24 tensas horas.Na conferência, Schwartz disse que embora o caixa tivesse se “deteriorado”, o financiamento do Fed, conduzido pelo JP Morgan, permitiria à firma “retomar normalmente os negócios”.Na verdade, equipes do JP Morgan e da J.C. Flowers & Co., empresa especializada em aquisições alavancadas, já estavam na sede da Bear Stearns na Madison Avenue, analisando sua contabilidade.Estava aparente, de uma maneira dolorosa, que nem as iniciativas do Fed, nem as afirmações tranqüilizadoras de Schwartz estavam tendo o efeito desejado. O resgate era visto como um sinal de fraqueza, em vez de esperança.No fim do dia, quase 190 milhões de ações da Bear Stearns haviam mudado de mãos – 17 vezes mais que a média diária – e o preço havia caído 47% a US$ 30 a ação.O diretor financeiro da Bear Stearns, Samuel Molinaro Jr., havia parado em um posto de gasolina no caminho para casa, em New Canaan, Connecticut, quando Schwartz telefonou naquela noite de sexta-feira com as más notícias.Paulson e Geithner queriam fechar acordo para vender a Bear Stearns até a noite de domingo, quando os mercados asiáticos entram em operação. “Você deve estar brincando”, disse Molinaro. “Pensei que tínhamos 28 dias.” “Eu também”, respondeu Schwartz. “Mas agora temos que fechar uma acordo neste fim de semana.” Às 8h do dia seguinte, os dois estavam de volta à Bear Stearns para encontrar executivos do JP Morgan.Antes, naquela tarde de sexta-feira, a Flowers havia apresentado uma proposta tentadora: ela compraria 90% da companhia por US$ 3 bilhões em dinheiro. Mas o negócio dependia da Flowers formar um consórcio de bancos para obter US$ 20 bilhões para o financiamento das operações normais da Bear Stearns.Horas depois, o JP Morgan disse que estava disposto a pagar entre US$ 8 e US$ 12 por ação por 19,9% da Bear Stearns. Isso avaliaria a companhia em algo entre US$ 944 milhões e US$ 1,4 bilhão.Na manhã do domingo, o JP Morgan enviou à Bear Stearns esboço de um plano de fusão com o preço da ação deixado em branco.Pouco depois das 8h, Schwartz reuniu cerca de 50 funcionários da Bear Stearns que estavam no prédio para ajudar os pretendentes na análise dos registros financeiros da firma. A Flowers estava tendo dificuldades para conseguir os recursos necessários para a operação da companhia. Ele sabia que a proposta do JP Morgan provavelmente seria a vencedora e queria administrar as expectativas em relação ao preço. “Temos um acordo”, disse ele ao grupo, “mas vocês não vão gostar dele.”Então, por volta das 10h, o JP Morgan subitamente retirou sua proposta. Comprar a corretora depois de uma breve análise era simplesmente arriscado demais, disse o banco a Gary Parr, o banqueiro de investimento que representava a Bear Stearns.O banco havia ficado com medo depois que seus diretores seniores retornaram à Park Avenue após a avaliação da contabilidade da Bear Stearns. Além de perder clientes, a firma estava enfrentando uma série de processos por causa do colapso de dois fundos de hedge seus no verão anterior, e seu grande portfólio hipotecário havia ficado muito exposto a novos problemas no mercado imobiliário. Um acordo com a Flowers não parecia mais provável. Por volta do meio dia de domingo, a firma de buyout sabia que seria impossível levantar US$ 20 bilhões com a rapidez necessária.Mas não demorou e o JP Morgan estava de volta, sugerindo o preço de US$ 4 por ação. Sob o plano, o Federal Reserve assumiria as responsabilidade por US$ 30 bilhões em títulos que a Bear Stearns tinha em carteira e que estavam tendo muita dificuldade para serem negociados, e com potencial tanto de ganhos como de perdas.Os diretores da Bear Stearns estavam ficando irritados. Como é que o preço podia passar de US$ 8 para US$ 4 em poucas horas? O presidente do conselho de administração, James Cayne – ele próprio um grande acionista, que foi diretor-presidente da firma por 14 anos até ser forçado a sair em janeiro – estava irado. “Vamos jogar a carta da falência”, disse ao grupo enquanto este discutia a proposta em uma sala de reuniões no alto do prédio da Madison Avenue.Uma grande equipe da firma de advocacia Cadwalader, Wickersham & Thaft já estava no prédio, preparando-se para um possível pedido de concordata, que tecnicamente daria à Bear Stearns tempo para resolver seus problemas com os credores. Mas a opção não seria prática: sob as mudanças feitas em 2005 no código de falências e concordatas, as autoridades reguladoras assumiriam o controle das contas dos clientes, deixando a firma com poucos negócios, ou nenhum. Muitas das operações pendentes da Bear Stearns em investimentos conhecidos como derivativos, que são atrelados a ativos como ações e bônus, poderiam ser penhoradas pelos credores.Ao longo do fim de semana, Geithner do Fed havia consultado Paulson, um ex-banqueiro de investimento que havia comandado o Goldman Sachs por sete anos antes de se tornar secretário do Tesouro dos EUA. Depois de uma conversa na tarde de domingo, eles decidiram que Paulson iria ligar para James Dimon, o diretor-presidente do JP Morgan.Ele encontrou Dimon, que colocou o telefone em viva-voz em sua sala no prédio da Park Avenue. O banco estava pensando num preço de US$ 4 a US$ 5 por ação. “Isso me parece alto”, disse Paulson. “Eu acho que o negócio deveria ser feito a um preço baixo.”Em razão do envolvimento sem precedentes do governo no resgate de uma instituição financeira com problemas, o secretário do Tesouro estava alerta para não parecer que estava ajudando investidores da bolsa quando famílias estavam perdendo suas casas em meio a um número recorde de execução de hipotecas. Ele também estava preocupado com “o risco moral”, o perigo de que um preço muito generoso viesse a encorajar comportamentos arriscados no futuro.No meio da tarde, enquanto os diretores da Bear Stearns discutiam esses problemas, Parr recebeu telefonema de Doug Braunstein, diretor da área de banco de investimento do JP Morgan. “O número é US$ 2″, disse Braunstein.”Você está brincando!”, respondeu Parr. Após anos prestando consultoria a empresas, ele não mais reagia mal a notícias ruins em negociações de acordos, mas sabia que o preço revisto seria muito difícil de ser engolido por seus clientes, quando voltou à sala de reuniões. “Preciso interromper vocês porque o JP Morgan atualizou o preço”, disse ele aos diretores da Bear Stearns, repassando o que lhe havia sido informado. Os diretores ficaram chocados. Cayne disse que não aprovaria de jeito nenhum um negócio por US$ 2.Schwartz não queria se opor ao Tesouro e ao Fed. Ele também sabia que como diretor-presidente de uma companhia constituída em Delaware, estava obrigado pela lei a considerar os interesses dos credores sobre os dos acionistas, se sua companhia ficasse insolvente. Além disso, ele tinha que pensar nos funcionários e não queria que estes tivessem os salários cancelados abruptamente e encontrassem os escritórios lacrados na manhã seguinte.”Dois dólares é melhor que nada”, disse ele aos diretores. Ele passou 30 minutos defendendo sua posição. Um preço de US$ 2 e o direito dos acionistas votarem, explicou ele, era melhor do que um preço zero e um pedido de concordata. Ele também alertou para as conseqüências enormes que uma concordata teria sobre os mercados mundiais – um cenário pelo qual os diretores da Bear Stearns certamente não iriam querer ser responsabilizados.Schwartz correu os olhos pela sala, mirando cada um dos membros do conselho. “Alguém se opõe?”, perguntou. Ninguém disse nada. Por volta das 18h30, o negócio foi unanimemente aprovado. Os consultores da Bear Stearns notificaram o JP Morgan, que agendou uma conferência telefônica com investidores às 20h para discutir o negócio.Exausto e humilhado, o diretor-presidente da Bear Stearns decidiu não participar.Às 19h, quando o site do “The Wall Street Journal” divulgou o preço de US$ 2, as instituições financeiras concorrentes ficaram chocadas.Tarde da noite naquele domingo, enquanto advogados se apressavam para finalizar o acordo de fusão, executivos do Fed de Nova York convocaram uma teleconferência com diretores-presidentes das instituições financeiras de Wall Street. Geithner e Dimon começaram falando com algumas observações curtas, notando que o JP Morgan iria garantir as dívidas da Bear Stearns e que se o acordo não tivesse sido feito, o impacto sobre os mercado poderia ter sido catastrófico. Durante a sessão de perguntas e respostas, o novo diretor-presidente do Citigroup, Vikram Pandit, se pronunciou.Pandit – que inicialmente não se identificou – fez uma pergunta astuta mas técnica: Como a compra iria afetar os riscos para os parceiros de negócios da Bear Stearns em certos contratos de longo prazo?A pergunta irritou Dimon. “Quem está falando?”, cortou ele. Pandit se identificou como “Vikram”. Ofendido por Pandit estar desperdiçando tempo com o que considerou perguntas grosseiras, Dimon disparou: “Não seja idiota”. Ele acrescentou que o Citigroup “deveria nos agradecer” por estarmos impedindo um caos maior em Wall Street. Nas horas seguintes, Dimon teria um motivo maior para se irritar. O negócio apressado tinha uma brecha que poderia dar a investidores furiosos da Bear Stearns uma grande oportunidade para tentar conseguir um preço maior: o JP Morgan havia prometido financiar os negócios da Bear Stearns por um ano – mesmo que o acordo fracassasse.Era o começo de outra longa semana. Na terça-feira de manhã, advogados do JP Morgan discutiam com seus colegas da Bear Stearns a garantia de um ano. A participação de 19,9% que o JP Morgan estava comprando na Bear Stearns não era suficiente para garantir que o acordo seria levado a cabo. O banco queria uma fatia maior e correção na garantia.Os acionistas insatisfeitos estavam se transformando em uma ameaça real. O administrador de recursos Bruce Sherman, o quarto maior acionista da Bear Stearns com pouco menos de 5% das ações, e o bilionário britânico Joe Lewis, o maior investidor individual da firma, com 6,9% das ações, haviam manifestado sua indignação naquela semana.Na manhã de quinta-feira, H. Rodgin Cohen – o especialista em legislação bancária da firma de advocacia Sullivan & Cromwell que estava aconselhando o conselho da Bear Stearns – fazia exercícios em uma esteira mecânica em casa, quando recebeu um telefonema de um executivo do JP Morgan. Ele queria uma garantia de que a Bear Stearns concordaria com a transferência de 51% de suas ações para o JP Morgan, como parte do negócio. Daquele modo, eles controlariam votos suficientes para aprovar o negócio sem precisar convencer os investidores insatisfeitos. As cortes de justiça de Delaware não gostam quando um comprador está para receber mais de 40% do capital de uma empresa. Para garantir a aprovação na justiça, o JP Morgan teria que optar por algo menor, conforme é o padrão, e depois convencer outros investidores a votarem a favor do negócio.Na manhã do domingo de Páscoa, Schwartz telefonou para Dimon. “Há um limite psicológico aí”, disse ele. Os diretores da Bear Stearns precisavam de um preço de venda de dois dígitos para se sentirem confortáveis. “Não me venha com US$ 9,99”, alertou ele a Dimon.Antes da abertura dos mercados na manhã seguinte, o JP Morgan fez uma contraproposta final: cerca de US$ 10 por ação, avaliando a corretora em US$ 1,2 bilhão, por 39,5% do seu capital. Para tornar a oferta palatável ao Fed, o JP Morgan assumiu a responsabilidade sobre o primeiro US$ 1 bilhão em perdas potenciais, reduzindo a exposição do governo para US$ 29 bilhões.O negócio foi aprovado, os mercados abriram tranqüilamente e a maioria dos investidores permaneceu feliz, sem perceber as turbulências da semana. Ainda assim, para a Bear Stearns, o governo federal e o JP Morgan, foi um desfecho insatisfatório.Os investidores da Bear Stearns “engoliram o sapo”, de uma maneira menos dolorosa que a vislumbrada por Paulson. O Fed conseguiu estabilizar os mercados, mas colocando em risco dezenas de bilhões de dólares e estabelecendo um precedente desconfortável. E o JP Morgan ficou com os clientes, os funcionários talentosos de Bear Stearns e um novo prédio por uma pechincha. Mas agora ele está com obrigações de pelo menos US$ 9 bilhões e a tarefa de integrar duas culturas corporativas muito diferentes.O índice Dow Jones não caiu 2.000 pontos, outras corretoras de valores não quebraram e o sistema financeiro mundial não entrou em colapso – embora tenha respirado com dificuldade. Quanto aos riscos, o moral e outros, que espreitam o futuro, eles terão que tomar conta de si mesmos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: