Efeito da ajuda 2

Entrada do governo acaba com era do deslumbramento em Wall Street

Valor Econômico – 15/10/2008

O histórico investimento do governo americano em Wall Street é um sinal do declínio das finanças modernas, e promete menos risco, contracheques mais magros e o enterro da audaz auto-imagem de Wall Street. “É uma mudança revolucionária – participação do governo, supervisão estatal. Eu não acho que as pessoas realmente compreendem a magnitude disso”, disse Peter J. Solomon, ex-banqueiro que agora dirige seu próprio banco de investimentos. O plano do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos para adquirir fatias dos principais bancos e garantir suas dívidas provavelmente significará “mais restrições sobre o risco e mais reserva de capital, e, portanto, menor rendimento no longo prazo”, disse num relatório a clientes o analista David Trone, do banco de investimentos Fox-Pitt, Kelton. Num universo cheio de motoristas particulares, entregas de sushi no meio da noite e ternos cortados sob medida, existe a sensação de que os excessos logo se tornarão coisa do passado.

E que isso já deve começar no fim do ano, quando a maioria dos bancos deve cortar pessoal. As mudanças são graves por causa da natureza desta crise. Em outras anteriores, como o colapso da bolha da internet depois de 2000, Wall Street teve poucas perdas, em parte porque as firmas não contavam com bilhões em ações de tecnologia em seus próprios balanços. A última debacle do mercado que ameaçou várias empresas importantes ocorreu em 1990, quando o colapso do mercado de “junk bonds”, ou títulos de alto risco, derrubou o banco de investimento Drexel Burnham Lambert Inc., que acabou precisando ser socorrido pelo First Boston Corp, hoje parte do Credit Suisse. Mike Holland, administrador de fortunas da Holland & Co., firma de investimentos de Nova York, compara o cenário atual com os anos 70, quando inflação crescente e juros altos sucederam o otimismo agressivo e a prosperidade dos anos 60. O rendimento das bolsas acabou indo por água abaixo. Na próxima década, disse Holand, veremos “menos casas nos Hamptons (balneário chique de Nova York), iates e festas na Sardenha”, reduzindo o “fascínio por Wall Street e pelo mundo dos bancos de investimentos”. Solomon, de 70 anos, começou a carreira em Wall Street na Lehman Brothers em 1960, quando a firma ocupava um acanhado edifício de 12 andares e o departamento inteiro de banco de investimentos ficava num único andar. “Comprávamos nossos próprios almoços e andávamos de metrô”, diz ele. Mas tudo mudou nas décadas seguintes, quando o setor financeiro conquistou uma fatia maior da economia americana. O crescimento estava ligado, em parte, às montanhas de capital emprestado que Wall Street podia usar em suas operações e para oferecer crédito. Os lucros explodiram, assim como os salários e a importância cultural. Em 2006, 37% dos formandos da Harvard Business School rumaram para Wall Street, ante 26% em 2004. À medida que a economia desmorona e a economia desacelera, o sentimento muda. O canal de TV a cabo CNN tem anunciado um programa no horário nobre chamado “Dez Mais Procurados: Culpados pelo Colapso”, acusando ex-executivos do alto escalão da Lehman Brothers Holdings Inc. e da American International Group Inc., assim como Christopher Cox, o presidente da SEC, a comissão americana de valores mobiliários, e até o ex-senador republicano Phil Gramm, este último por conta de seu papel na liberalização de Wall Street, em décadas passadas. Solomon traça a gênese da crise, comparada por ele ao estouro de um rebanho de búfalos rumo a um despenhadeiro, à abertura de capital das maiores firmas de Wall Street. A Merrill Lynch abriu o capital em 1971, o Morgan Stanley em 1986 e a Goldman Sachs em 1999. “A partir daí é que se uniu responsabilidade limitada com acesso ilimitado ao capital, a partir daquele momento é que Wall Street começou a correr até cair de cara no chão”, disse Solomon. Agora os contribuintes, como investidores no negócio, não tolerarão mais tanto risco, diz ele. “A compra e venda de ações, que corresponde a uma boa fatia de nosso negócio, não vai mais se recuperar e isso prejudicará imensamente as margens”, disse um banqueiro do alto escalão de uma das firmas que receberá investimento do governo. E, quando o potencial de lucro se esvanece, os bancos são forçados a entrar em acordos de fusão, dizem analistas, reduzindo mais ainda o número de vagas e os salários.

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