Nobel para Krugman

No Brasil, americano recebe elogios de todos os lados
Valor Econômico – 14/10/2008
A escolha de Paul Krugman para o Nobel de Economia de 2008 agradou os economistas brasileiros, tanto os ortodoxos como os heterodoxos. Os analistas ouvidos pelo Valor destacaram a importância da nova teoria do comércio internacional, considerada criativa e inovadora. Os seus estudos sobre a localização das atividades econômicas e sobre crises cambiais também receberam elogios. Professora da Escola de Economia de São Paulo (EESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Eliana Cardoso destaca o fato de Krugman ter introduzido a questão dos ganhos de escala e da competição imperfeita para a teoria do comércio internacional. “Ele coloca a teoria dos jogos dentro da área de comércio”, diz Eliana, que conviveu com Krugman na época em que fazia o seu doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Ela concluiu o seu em 1979 e ele, em 1977. “Todos os professores o consideravam brilhante.
Ele tem uma cabeça excepcional e é muito respeito no mundo acadêmico.” O economista Aloisio Araújo, professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que a nova teoria de comércio internacional é importante, entre outros motivos, para entender as trocas entre os países desenvolvidos. A teoria clássica das vantagens comparativas explica por que um país rico se relaciona com um país pobre, mas não por que há muitas trocas comerciais entre os EUA e os países da Europa. “É um modelo importante, que não foi refutado”. Também professor do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (Impa), Araújo destaca que a importância do modelo de competição imperfeita desenvolvida por Avinash Dixit e Joseph Stiglitz (laureado com o Nobel em 2001) para os estudos de Krugman sobre o comércio internacional. O professor Carlos Eduardo Gonçalves, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, também aponta a importância da teoria de comércio internacional. Segundo ele, o modelo de Krugman sugere que, em determinadas circunstâncias, a adoção de medidas protecionistas pode levar a um aumento de bem-estar na economia. Mesmo assim, nota Gonçalves, o americano continuou a defender o livre comércio. Um dos pontos é que os benefícios do protecionismo se dariam em casos bastante específicos, de difícil definição. O pensamento de Krugman também agrada o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp. “O prêmio foi merecido”, diz ele, que considera o americano “eclético e não dogmático”, o que ajudaria a explicar por que ele agrada tanto heterodoxos como ortodoxos. Além do trabalho sobre comércio internacional, Belluzzo ressalta os estudos de Krugman sobre crises cambiais, analisando situações de países que mantinham regimes com câmbio fixo. Para o professor David Kupfer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Krugman tem uma “produção muito vasta, de alta qualidade”. Ele enfatiza o fato de o americano estudar o funcionamento da economia real. Num momento de grave crise financeira, esse pode ter sido o recado que a Academia Sueca quis transmitir, acredita ele, notando que, nos últimos anos, foram premiados vários economistas com forte preocupação matemática e estatística. Para Eliana, engana-se quem vê em Krugman um economista heterodoxo. “A modelagem e o modo de entender a economia são totalmente ortodoxos”, diz Gonçalves. Independentemente de alguma motivação política na escolha de Krugman, crítico ácido do governo Bush, todos os economistas ouvidos pelo Valor consideraram o prêmio acertado. A brilhante história acadêmica de Krugman justificaria o Nobel, ainda que hoje ela esteja em segundo plano, ofuscada por sua atuação como articulista do “The New York Times”. Gonçalves, por exemplo, considera que o economista às vezes peca por cair em excessivo proselitismo político. “Mas se trata de um gênio, com uma criatividade absurda”, diz, elogiando livros de Krugman voltados a um público mais amplo, como “Internacionalismo Pop”. Além de um eventual caráter político ao prêmio, também chama a atenção o fato de que Krugman ganhou o Nobel sozinho – em muitas ocasiões, a Academia premia mais de um economista, como em 2007, quando Leonid Hurwicz, Eric Maskin e Roger Myerson foram os vencedores. Eliana e Araújo dizem que o israelense Elhanan Helpman poderia ter sido escolhido ao lado de Krugman, com quem escreveu um livro tido como fundamental como “Market Structure and Foreign Trade”. De qualquer modo, os dois consideram que o pioneirismo de Krugman justifica um prêmio só para ele. Eliana destaca as recentes análises de Krugman sobre a crise financeira. “Os seus pontos de vista são bastante esclarecedores”, afirma ela. Em seu blog e nos artigos para o “New York Times”, Krugman foi um dos primeiros a apontar graves defeitos no plano de socorro financeiro desenhado pelo secretário do Tesouro, Henry Paulson. Krugman defendeu desde o começo a injeção de capital nos bancos em troca de ações preferenciais. Há nove anos, Krugman se envolveu numa polêmica com Arminio Fraga, na época em que o brasileiro foi convidado para assumir o Banco Central (BC). Num artigo para a revista “Slate”, Krugman insinuou que Arminio passara informações privilegiadas a George Soros, seu ex-patrão. Autoridades brasileiras teriam dito a Arminio que não pretendiam deixar de pagar a dívida do país. A informação teria sido repassada a Soros, e este teria aproveitado para comprar títulos brasileiros. Arminio escreveu uma dura carta à “Slate”, dizendo que a acusação era falsa e que Krugman não se preocupou em verificá-la com ele. Krugman se retratou formalmente, pedindo desculpas a Arminio por sua falta de cuidado.

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