Archive for the ‘publicação’ Category

Colaboração intelectual

fevereiro 7, 2008

Em Intellectual Collaboration, David N. Laband (Auburn University) e Robert D. Tollison (University of Mississippi) (Journal of Political Economy, 2000, vol. 108, no. 3) fazem um levantamento histórico da publicação de pesquisas econômicas e biológicas. Laband e Tollison percebem que cada vez mais os artigos publicados na área contam com a participação de mais autores. Ou seja, a colaboração intelectual seria uma marca do nosso tempo.

O gráfico a seguir foi retirado do trabalho destes autores e mostra a percentagem de artigos com co-autoria (mais de um autor) ao longo do tempo nas duas áreas. A série histórica é longa (a partir de 1950) e claramente aponta que artigos individuais são exceção nos últimos anos (a linha de cima é biologia; de baixo, economia).

A figura seguinte também é interessante pois mostra o número de co-autores por artigo. Novamente a tendência crescente é clara, sendo comum artigos com 2 autores, por exemplo.

A próxima figura mostra o número de colaboradores informais. Estes colaboradores são aqueles que apresentaram algum tipo de contribuição para o artigo. Novamente, existe uma tendência crescente neste gráfico.

Estas figuras mostram claramente que é cada vez mais difícil fazer pesquisa individual. Hoje a pesquisa é realizada por um grupo de cientistas. E isto também ocorre na área de ciências contábeis.

Qual a razão disto? Uma possível explicação é a especialização na área de conhecimento. Os artigos em co-autoria é uma necessidade diante da complexidade cada vez maior das áreas.

Tenho uma outra possível explicação, mais cínica. O aumento da co-autoria é uma forma que os pesquisadores encontraram para responder a pressão para publicação. Existiria uma troca entre autores para colocar o nome do artigo do outro, aumentando a chance de publicação.

Aqui outro ponto de vista sobre o assunto

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A ordem dos autores num trabalho acadêmico

janeiro 22, 2008

Diversos trabalhos já mostraram que a ordem dos autores é relevante, e prejudica quem possui o último nome. Na contabilidade o livro muito usado no Brasil de Teoria Contábil é o do Hendricksen e Van Breda. Mas muitos citam somente o primeiro autor (Hendricksen) e esquecem do segundo (Van Breda). Minha experiência pessoal mostra que isto é verdade; já análise diversos trabalhos que citavam o livro de Administração do Capital de Giro escrito pelo Assaf (mas não Assaf e Silva).

Mas não é somente numa publicação acadêmica que a ordem é relevante. Uma empresa com o nome de AAA Administradores aparecerá em primeiro lugar na lista telefônica. Ou nos classificados de um jornal.

Uma possibilidade é usar a ordem de contribuição numa obra. Assim, o autor que mais contribuiu estaria listado em primeiro lugar. Mas este critério é subjetivo e dos próprios autores. Às vezes uma pequena contribuição pode ser mais expressiva do que muitas linhas escritas. Quando, como orientador, apresento uma idéia para um orientado, indico as coordenadas e apresento as soluções talvez minha contribuição seja mais significativa.

Há muitos anos li na The Economist sobre a discriminação alfabética, que favorece as pessoas que possuem os nomes nas primeiras letras do alfabeto. A revista lembrava que os políticos do mundo moderno possuem nomes que começam com a primeira parte do alfabeto (Clinto, Bush, Blair, entre outros. O atual primeiro ministro da França seria, portanto, uma exceção). E esta discriminação começa na escola, onde a lista de chamada obedece esta ordem (A UnB a ordem é pelo número de matrícula, o que seria uma exceção).

Quando era coordenador de um programa de mestrado, usei a ordem inversa para subverter esta discriminação. Mas provavelmente esta não é uma solução adequada.

Aqui, algumas referências sobre o assunto, que encontrei neste endereço

Cornell, Bradford and Richard Roll. 1981. Strategies for pairwise competitions in markets and organizations. Bell Journal of Economics 12 (1), 201-213.

Einav, Liran and Leeat Yariv. 2006. What’s in a Surname? The Effects of Surname Initials on Academic Success. Journal of Economic Perspectives 20 (1), 175–188.

Engers, Maxim, Joshua S. Gans, Simon Grant and Stephen P. King. 1999. First-Author Conditions. Journal of Political Economy. 107 (4), 859–83.

Merton, Robert K. 1973. The Sociology of Science: Theoretical and Empirical Investigations. Chicago: Univ. Chicago Press.

Viés da Publicação

dezembro 6, 2007

Um trabalho que anuncia que a pena de morte salva vidas. Segundo um estudo, para cada pena de morte, 3 a 18 mortes são evitadas. Entretanto, diversos outros estudos apontam o contrário. Quem está certo? Uma possível explicação é o viés da publicação. Neste tipo de viés, somente as pesquisas que apresentam resultados interessantes, contrário ao senso comum ou a pesquisa já realizada, são publicados. Clique aqui para ler mais

Influencia na avaliação

agosto 6, 2007

Os periódicos científicos adotam, geralmente como padrão, a avaliação de um trabalho sem saber a autoria do mesmo. Uma experiência interessante mostrou que ao saber algo sobre o autor isto muda a percepção do avaliador.

Uma pesquisa da JAMA de 2006 mostrou os efeitos em 67 mil resumos submetidos na American Heart Association (AHA) entre 2000 e 2004. No começo de 2002 a AHA mudou o processo de análise, retirando o nome dos autores e sua origem dos resumos antes de mandar para análise. Ao comparar os dois períodos, o número de trabalhos de autores norte-americanos reduziu significativamente. (Aqui para ler mais)

Pareceristas

agosto 2, 2007

Existe uma crise nos pareceres da área? Acredito que sim, pois a qualidade está caindo. Isto inclui a educação dos pareceristas. Num congresso recente um parecer tinha os seguintes dizeres:

Trata-se de mais uma investigação semelhante aos inúmeros trabalhos coordenados pelo Prof. YYY. Nada acrescenta ao já publicado. A plataforma teórica – modelo de Trzesniak – é extremamente confusa, daí os autores calcularem apenas os fatores de impacto. Apresenta enormes tabelas que pouco dizem. Não explicam como chegam, por exemplo, aos 42705 autores, 83159 referências de um ano, sendo que depreende-se [SIC] que são necessários três anos. Caso o processo seja manual, sugerimos o emprego de ´presidiários´ para essa tarefa. Acho que não errei nas contas: segundo os criativos autores, há em média 21 autores por artigo e com uma média de 42 referências por artigo, em um ano que os autores pesquisaram a base SCOPUS.

Deselegante, no mínimo. O trabalho não é de minha autoria, mas conheço o autor e sei de sua enorme capacidade. Parece que o parecerista não merecia estar na listagem.

A publicação em Periódicos Acadêmicos irá perder a importância?

agosto 2, 2007

Um pesquisador que deseja publicar num periódico de bom nível pode levar mais de dois anos para conseguir seu intento. Após enviar seu texto para o periódico, ele aguarda de dois a seis meses (em alguns periódicos este prazo é maior) com as respostas dos pareceristas (geralmente dois). Feitas as correções, o artigo é reenviado para o periódico, que encaminha para os pareceristas aprovarem o que foi corrigido.

Com a aprovação do artigo, o texto entra numa lista de espera, que pode demorar um certo tempo. Recentemente saiu um artigo de minha co-autoria que tinha sido escrito há três anos.

Para quem deseja fazer um bom currículo acadêmico, este é o caminho. Isto significa que o que está sendo agora pesquisado só deverá chegar nos periódicos em 2010. Mas será que isto é o caminho mais adequado?

Recentemente um periódico da economia adotou um política interessante de fazer uma análise do artigo sem revisão (clique aqui para ler).

Agora uma pesquisa conduzida por Ellison (Is Peer Review in Decline?) mostra que nas últimas décadas observou-se um declínio dos artigos escritos por economistas de universidades com melhores rankings.

Existem algumas possíveis explicações para este acontecimento. Em primeiro lugar, talvez mais novos pesquisadores talentosos estejam publicando nos dias de hoje. Uma segunda possibilidade é o próprio processo de revisão dos jornais econômicos. Finalmente, Ellison considera a possbilidade de declínio na qualidade das revisões e nas características da publicação acadêmica, que torna menos atrativo publicar.

Clique aqui para ler também

Análise de artigos em periódicos: Economic Inquiry

julho 26, 2007

O periódico Economic Inquiry resolveu adotar uma nova política na análise de artigos submetidos para publicação.

Em geral os periódicos adotam um procedimento de revisão realizado por pareceristas. Quando um artigo é enviado para publicação, o editor distribui o artigo para análise de parecerista, geralmente dois. Estes pareceristas são autores da área que irão opinar sobre a publicação ou não do artigo. Em geral o parecer solicita alterações no artigo. De uma maneira geral, a publicação do artigo está condicionada as mudanças propostas pelo parecerista.

Isto geralmente faz com que o artigo leve muito tempo para ser publicado.

O Economic Inquiry adotou uma nova política: não haverá sugestão de alteração. Ou o artigo será aceito ou recusado.

Clique aqui e aqui

Pesquisa e Ensino

março 6, 2007

Uma questão que tem sido debatida em alguns blogs refere-se à pesquisa e ensino na universidade.

De uma maneira geral, a pesquisa tem sido a questão mais destacada quando se comenta sobre o ensino superior. Recentemente, na última Revista Brasileira de Contabilidade, foi discutida uma pesquisa realizada no Brasil sobre os maiores pesquisadores brasileiros na área de contabilidade. Destaco, inicialmente, o ineditismo desse ranking no Brasil. Entretanto, a metodologia usada poderia ser questionada. Afinal, a qualidade é igual a quantidade?

Recentemente no Blog de Greg Mankiw foi publicada uma crítica ao fato do peso na universidade ser para as pessoas que publicam. Argumenta-se que a maioria dos artigos que são publicados é realmente questionável.

Nessa semana, o debate Posner e Becker foi sobre escolas de economias e ranking. Posner acha que os rankings são manipuláveis pelas escolas, dependendo do atributo. Becker lembra que nos últimos anos tem crescido o interesse por ranking. Isso ocorre devido à dificuldade dos estudantes, pacientes e outros consumidores em ter uma informação suficiente sobre os atributos que são oferecidos nas escolas, hospitais e outros serviços. Becker lembra que os rankings podem conduzir a um “jogo” na medida. Por exemplo, se os hospitais são classificados pela taxa de mortalidade dos seus pacientes, isso pode conduzir essas organizações a não aceitar pacientes que estão em estado grave.

Voltando nossa atenção para a academia, a presença de rankings pode conduzir a distorções. Hoje os pesquisadores brasileiros sabem, por exemplo, que publicar um artigo num periódico pode significar mais pontos que publicar em outro periódico. Isso também é válido para congressos e outras atividades. Quando faço um parecer para um periódico não ganho pontos na minha atividade de pesquisador na visão da Capes. Mas quando publico um artigo num periódico de nível A, ganho. Esse tipo de situação conduz ao que Becker chamou de “jogo”, incentivando o comportamento do pesquisador para algo que talvez não seja adequado.

Andrew Oswald, da University of Warwick, fez uma pesquisa simples, mas interessante. Usando dados de periódicos antigos na área de economia, Oswald critica as universidades que tem sua política voltada para publicação em periódicos de prestígio. Para Oswald, publicar nesses periódicos não significa necessariamente qualidade. Utilizando o impacto da citação como variável, Oswald mostra que uma pesquisa publicada num periódico de alto nível pode ser “pobre” pois não é lembrada posteriormente. Já uma excelente pesquisa publicada num periódico de nível mediano pode ser considerada de maior qualidade já que é lembrada mais vezes. (Oswald explica que isso decorre do desvio-padrão)

Ellison, do MIT e do NBER, mostrou que nos últimos anos o número de artigos publicados nos periódicos científicos de economia escritos por departamentos de universidades de renome tem declinado. A justificativa para isso talvez seja o acesso mais fácil aos dados proporcionado pela Internet.